PURSUE Tranche 3: 4,6 gigabytes de coisas que não deveriam existir
294 arquivos, um bilhão de acessos, zero respostas
Em seis semanas, o Departamento de Guerra publicou 294 registros sobre UAPs e ainda chama tudo de “não resolvido”. A Tranche 3 adicionou 72 arquivos, estreou a CIA no programa, expôs orbes filmadas pelo FBI sobre solo americano e desenterrou um estudo do Exército de 1949 — sem metadados, sem cadeia de custódia, sem análise oficial. Transparência ou opacidade com marketing?

Às 08h00 de 12 de junho de 2026, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou a terceira leva de arquivos do programa PURSUE — Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters. Estabelecido por ordem executiva em fevereiro de 2026, o programa foi desenhado para fazer o que nenhum presidente anterior fez: abrir os arquivos. Todos eles. Ou pelo menos — e esta distinção importa — todos os que alguém decidiu que poderiam ser abertos.
A Tranche 3 adicionou 72 novos registros ao acervo público, elevando o total para 294. Mas o número de arquivos é o dado menos interessante. O dado interessante é o que está dentro deles — e, mais importante, o que não está.
1. O que caiu: anatomia de um despejo de dados
O pacote é pesado. São 826 MB de documentos e 4,6 GB de vídeo, distribuídos em três categorias de origem que, pela primeira vez, incluem a Central Intelligence Agency.
CIA — 18 documentos históricos. Correspondência interna do Painel Robertson (1952–1953), o comitê científico que recomendou ao governo tratar avistamentos de OVNIs como problema de segurança nacional — não porque fossem ameaça alienígena, mas porque sobrecarregavam canais de inteligência durante a Guerra Fria. Incluem relatórios de avistamentos no exterior durante o período soviético. A CIA participar do PURSUE é uma escalada institucional: até a Tranche 2, a agência estava ausente.
FBI — Casos de Orbes. Dois arquivos destacam-se:
- “Orbs Over the Pond” (outubro de 2024): vídeo e fotografias de objetos esféricos sobre território americano, acompanhados de renderizações digitais baseadas em relatos de agentes de campo. Classificação: não resolvido.
- “Northeastern Orb Sighting” (julho de 2025): documentado sob o designador FBI-UAP-D010, inclui um formulário FD-302 (entrevista formal) e relatório narrativo FD-1057. Classificação: não resolvido.
Há uma observação editorial necessária aqui. Os designadores PR003 e PR024, citados em alguns veículos como identificadores desses casos, não correspondem a nenhuma convenção de nomenclatura pública do FBI. Uma busca no Vault do FBI — o repositório digital de documentos desclassificados da agência — retorna zero resultados para essas siglas. Podem ser identificadores internos, podem ser de bancos de dados não oficiais, podem ser erro de atribuição. A Arcavox registra a discrepância sem resolvê-la — porque resolvê-la exigiria acesso a sistemas que o público não tem.
Registros militares históricos. Um estudo do Exército de 1949 intitulado “Flying Saucer Evaluation”. Relatórios de avistamentos da URSS e Hungria. Trechos de entrevistas com o astronauta Gordon Cooper, que relatou encontros com objetos não identificados durante missões da NASA. E um dossiê sobre o incidente de Colorado Springs (2022): um objeto descrito como “formato de batata”, documentado com formulário FD-302, relatório FD-1057, renderização digital e — detalhe raro — uma análise da comunidade de inteligência.
2. O bilhão de olhos: o portal que o governo não esperava
O portal war.gov/UFO ultrapassou 1 bilhão de acessos desde seu lançamento em maio. O número é absurdo por qualquer métrica de engajamento público com documentos governamentais. Para contexto: o relatório do 11 de Setembro recebeu 36 milhões de downloads em sua primeira década. Os documentos do Wikileaks sobre o Afeganistão, 78 milhões. O PURSUE gerou mais tráfego em seis semanas do que a maioria dos programas de transparência gera em toda a sua existência.
O que esse número significa é objeto de interpretação. Para o governo, é prova de que o programa funciona. Para os críticos, é prova de que o público está desesperado por respostas que os arquivos não fornecem. Para analistas de mídia, é um fenômeno de atenção coletiva sem precedente em documentos desclassificados.
O que ele não significa é que as perguntas foram respondidas. Porque não foram.
3. A evolução das tranches: do silêncio à opacidade transparente
A progressão das três tranches revela um padrão que merece atenção:
| Tranche | Data | Arquivos | Conteúdo principal |
|---|---|---|---|
| 1 | 08/05/2026 | 162 | Relatórios FBI, relatos de pilotos militares, transcrições da era Apollo (1944–2026) |
| 2 | 22/05/2026 | 64 | 51 vídeos infravermelhos, abatimento de objeto sobre o Lago Huron (F-16), objetos rastreados por submarino, orbes perseguindo jatos |
| 3 | 12/06/2026 | 72 | Primeiros arquivos CIA, orbes FBI, incidente Colorado Springs, estudo “discos voadores” 1949 |
A Tranche 1 era documental. A Tranche 2 era sensorial — vídeos infravermelhos, dados de radar de submarinos, registros de interceptação. A Tranche 3 é institucional — a CIA entrando no jogo, o FBI mostrando casos domésticos, o Exército desenterrando avaliações de 77 anos atrás.
A progressão sugere uma estratégia de aclimatação: primeiro os fatos frios; depois as imagens que os tornam viscerais; por último, a confissão de que as agências mais poderosas do planeta estiveram observando o mesmo fenômeno — e chegaram à mesma não-conclusão.
4. “Deep State classic”: a reação que o governo não antecipou
Se o objetivo do PURSUE era gerar confiança pública, o resultado foi o oposto.
A congressista Anna Paulina Luna, que preside as audiências do Comitê de Supervisão sobre UAPs, chamou o programa de “Deep State classic” — transparência nominal sem substância real. O congressista Tim Burchett foi mais direto: “Estão liberando o que não importa para esconder o que importa.”
Do lado da pesquisa, Christopher Mellon — ex-subsecretário adjunto de Defesa para Inteligência — e o ex-Contra-Almirante Tim Gallaudet classificaram o PURSUE como “despejo de dados sem contexto analítico”. O pesquisador Ryan Graves acrescentou: “Dados sozinhos não são divulgação.”
A crítica é estrutural e merece descompactação:
Ausência de metadados. Os vídeos são frequentemente comprimidos, sem dados de sensor brutos (radar, EO/IR, assinatura térmica). Sem metadados, não há análise independente possível. É como publicar uma radiografia sem o prontuário do paciente e perguntar ao público se o osso está quebrado.
Ausência de análise oficial. Nenhuma das três tranches inclui produtos analíticos do AARO (All-domain Anomaly Resolution Office) — a agência especificamente criada para analisar esses fenômenos. O governo publica os dados brutos. Mas a interpretação desses dados pela própria agência responsável? Essa permanece classificada.
Ausência de cadeia de custódia. Quem filmou, quando, com qual equipamento, sob quais condições de calibração? Sem isso, qualquer físico, engenheiro ou analista de imagem dirá a mesma coisa: “Não posso avaliar isso.”
O governo, efetivamente, está pedindo ao setor privado e ao público que façam o trabalho que suas próprias agências se recusam a publicar. Isso não é transparência. É terceirização de responsabilidade.
5. O que o footage mostra — e o que não mostra
Os vídeos das orbes do FBI são, visualmente, o material mais provocativo da Tranche 3. Objetos esféricos, luminosos, sem superfícies de controle visíveis, sem rastro de propulsão, operando sobre território americano em dois momentos distintos — outubro de 2024 e julho de 2025.
As renderizações digitais adicionadas pelo FBI são um detalhe incomum. Agências de inteligência não costumam produzir ilustrações artísticas de fenômenos que consideram irrelevantes. A existência de renderizações baseadas em depoimentos de agentes implica que alguém dentro do Bureau considerou os avistamentos suficientemente significativos para justificar investimento em reconstrução visual.
Mas os vídeos, por si só, não provam nada — nem a favor, nem contra. Sem dados de sensor complementares, sem triangulação de múltiplas fontes, sem espectroscopia, sem análise de trajetória cinemática, uma esfera luminosa num vídeo pode ser qualquer coisa desde um drone experimental até um artefato óptico. A diferença entre “inexplicável” e “inexplicado por falta de dados” é abismal — e o governo, deliberadamente ou não, está operando nesse abismo.
6. O convite ao setor privado: quem analisa o que o governo não quer analisar?
A posição oficial do Departamento de Guerra é a seguinte: os arquivos são “casos não resolvidos”. O governo não chegou a conclusões definitivas sobre eles. E — eis a novidade — solicita ativamente a análise do setor privado.
É uma inversão extraordinária. Durante décadas, o establishment militar tratou a questão UAP como assunto de segurança nacional, classificado, inacessível. Agora, publica terabytes de dados e pede ajuda. As interpretações possíveis são múltiplas:
- O governo genuinamente não sabe o que tem e quer olhos frescos.
- O governo sabe o que tem e está conduzindo um exercício de relações públicas.
- O governo está testando a reação pública a categorias de informação cada vez mais anômalas, preparando o terreno para uma divulgação futura.
- Todas as anteriores.
Nenhuma dessas interpretações é mutuamente exclusiva. E nenhuma pode ser descartada com os dados disponíveis.
Por que isso importa. Em seis semanas, o governo dos Estados Unidos publicou 294 arquivos sobre fenômenos que suas próprias agências classificam como “não resolvidos”. A CIA contribuiu pela primeira vez. O FBI documentou esferas sobre solo americano. O Exército desenterrou estudos de 1949. Um bilhão de pessoas acessou o portal. E a única conclusão oficial é: “Não sabemos o que é.” Se isso é transparência, é a versão mais estranha já praticada por uma democracia. Se é teatro, é o espetáculo mais caro da história do governo federal. Se é preparação para algo maior — essa é a pergunta que ninguém no Departamento de Guerra está respondendo. E talvez essa seja exatamente a resposta.
Conclusão: o dossiê que se lê sozinho
A Tranche 3 do PURSUE não é um evento. É um sintoma. É o sinal de que algo mudou na relação entre o governo americano e a informação que ele detém sobre fenômenos que não consegue — ou não quer — explicar.
São 4,6 gigabytes de vídeo de coisas que, segundo o próprio governo, não deveriam existir nos termos em que existem. E o governo está, literalmente, pedindo ao público que o ajude a entender o que filmou.
Se os arquivos contêm a verdade, ela está enterrada sob camadas de compressão de vídeo e ausência de metadados. Se não contêm, então o maior programa de transparência sobre UAPs da história é também o maior exercício de desvio de atenção. Em ambos os casos, as perguntas sobrevivem aos dados.
O portal continua em war.gov/UFO. Os arquivos continuam “não resolvidos”. E um bilhão de acessos depois, ninguém sabe mais do que sabia antes — apenas sabe que não sabe oficialmente.
O dossiê permanece aberto.
Referências
- U.S. DEPARTMENT OF WAR. Department of War Releases Unidentified Anomalous Phenomena Files in Historic Third Tranche. U.S. Department of War, 12 jun. 2026
- [REVISAR LINK] CBS NEWS. Pentagon’s 3rd release of UFO files includes new documents, videos. CBS News, 12 jun. 2026
- [REVISAR LINK] TODAYWHY. PENTAGON UFO FILES Tranche 3 Released: What’s Coming Next. TodayWhy, 12 jun. 2026
- [REVISAR LINK] MASHABLE INDIA. UFO Disclosure 2026: Department Of War Releases Third Batch Of Files. Mashable India, 12 jun. 2026
- FBI. UAP Document Library: FBI-UAP-D010_FD-302-71_Northeastern-Orb-Sighting_2026.pdf. U.S. Department of War, 2026
- WARUFO.COM. UAP Document & Media Archive. WARUFO, 2026
- [REVISAR LINK] DEFENSESCOOP. Trump orders first UAP/UFO file drop under ‘PURSUE’ program. DefenseScoop, 14 maio 2026
- PURSUEFILES.COM. PURSUE Files Archive. PursueFiles, 2026
- FBI VAULT. FBI Digital Records — Search Results. Federal Bureau of Investigation, 2026
ArcaVox · 12 de junho de 2026
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