Espionado enquanto investigava: Pegasus infectou celular de eurodeputado do comitê anti-spyware
Análise forense do Citizen Lab confirma que o grego Stelios Kouloglou, integrante do Comitê PEGA do Parlamento Europeu, foi hackeado duas vezes com Pegasus durante fases decisivas do inquérito sobre spyware — e a identidade de quem ordenou

A vítima é Stelios Kouloglou, jornalista investigativo grego e ex-eurodeputado, que integrou como membro suplente o Comitê PEGA entre março de 2022 e julho de 2023. Segundo a análise forense do seu iPhone, as infecções ocorreram em 21 de outubro de 2022 e novamente em 6 e 7 de março de 2023 — datas que coincidem, com precisão desconfortável, com fases sensíveis das deliberações do comitê.
É o primeiro caso publicamente identificado de um membro do PEGA hackeado com Pegasus durante o exercício da função. A descoberta transforma uma suspeita abstrata — a de que a vigilância mercenária ameaça o próprio escrutínio democrático — em evidência forense documentada.
Um exploit invisível, três alertas ignorados
De acordo com o relatório do Citizen Lab, a primeira infecção usou o exploit zero-click apelidado de PWNYOURHOME, que não exige qualquer clique da vítima: o ataque combinava um arquivo malicioso entregue via HomeKit — o sistema de casa inteligente da Apple — com conteúdo que atravessava o BlastDoor, a camada de proteção do iMessage. A Apple mitigou a falha no iOS 16.3.1; o aparelho de Kouloglou, nas datas dos ataques, rodava o iOS 15.5.
Segundo o The Hacker News, a análise forense dos artefatos do iPhone foi realizada em maio de 2026, quando Kouloglou procurou o laboratório — quase quatro anos após o primeiro comprometimento.
Há um detalhe que expõe uma falha sistêmica: o relatório documenta que Kouloglou recebeu três notificações de ameaça da Apple sobre spyware mercenário — em março de 2023, agosto de 2023 e abril de 2024 — e afirma não se recordar de ter visto nenhuma delas. Os alertas, enviados em lotes e com meses de atraso, não cumpriram sua função mais básica: fazer o alvo perceber que era alvo.
O timing que não parece coincidência
A cronologia reconstituída pelo Citizen Lab é o núcleo investigativo do caso. A primeira infecção, em 21 de outubro de 2022, ocorreu dias antes de uma sequência de audiências do PEGA sobre big techs, privacidade eletrônica e direitos fundamentais — e no exato período em que rascunhos do primeiro relatório do comitê circulavam entre membros e assessores, majoritariamente por mensagens de texto e e-mail. Dez dias depois, o comitê embarcaria em missão oficial ao Chipre e à Grécia, viagem de cujo planejamento Kouloglou participava.
O cenário da infecção adiciona uma camada peculiar: naquele dia, Kouloglou estava hospitalizado para uma cirurgia eletiva em Atenas. Recebeu no quarto a visita do jornalista investigativo Thanasis Koukakis — ele próprio confirmado como vítima do spyware Predator, da Intellexa, e testemunha ouvida pelo PEGA semanas antes. Koukakis fotografou o encontro. O relatório observa que, se o spyware capturou conversas no quarto ou dados médicos no aparelho, o caso pode implicar as proteções reforçadas da legislação grega para dados de saúde.
A segunda infecção, em 6 e 7 de março de 2023, encontrou Kouloglou em Bruxelas, em meio às discussões finais do relatório do comitê — adotado dois meses depois. No mesmo intervalo, a relatora do PEGA, Sophie in ‘t Veld, estava na Grécia questionando autoridades sobre o escândalo local de vigilância.
A pista que aponta para fora da Grécia
O Citizen Lab afirma com alta confiança que o spyware era o Pegasus, da israelense NSO Group — mas não atribui as infecções a nenhum cliente específico. E, contrariando o palpite mais óbvio, declara não ter encontrado indícios de responsabilidade do governo grego: apesar do escândalo doméstico envolvendo o Predator, não há registro de que a Grécia seja ou tenha sido cliente da NSO.
A pista mais concreta aponta em outra direção. O endereço de e-mail usado na infecção via HomeKit — rauharepo888[@]gmail.com — é o mesmo identificado em um relatório de 2024 do Citizen Lab com a Access Now sobre uma campanha de Pegasus contra jornalistas independentes e ativistas exilados de língua russa e bielorrussa na Europa. Na avaliação dos pesquisadores, esses endereços são únicos por operador — o que sugere que o mesmo cliente da NSO esteve por trás de ambos os casos.
Como as infecções de Kouloglou ocorreram em pelo menos duas jurisdições (Grécia e Bélgica), o relatório conclui que o operador provavelmente detinha licença da NSO para agir em múltiplos países da União Europeia — um detalhe que estreita a lista de suspeitos, mas não a fecha.
“É totalmente absurdo que nada esteja sendo feito”, disse a eurodeputada alemã Hannah Neumann, ex-integrante do PEGA, ao The Record, criticando a inação europeia diante da persistente “falsa noção de que o spyware contribui para a segurança” (em tradução livre).
Um parlamento sob vigilância — e uma Comissão parada
O caso Kouloglou não é um ponto fora da curva; é o mais recente de uma série. O próprio relatório recapitula que quatro eurodeputados catalães foram alvos diretos ou indiretos do Pegasus antes mesmo da criação do PEGA — três deles depois integraram o comitê. Em 2024, a francesa Nathalie Loiseau, presidente da subcomissão de segurança e defesa, confirmou ter sido alvo do Pegasus, e o alemão Daniel Freund anunciou ter sido visado pelo spyware da Candiru.
O pano de fundo político agrava o quadro: o PEGA entregou suas recomendações em junho de 2023, e, segundo o The Record, a Comissão Europeia as ignorou em grande parte desde então — omissão que pesquisadores e dezenas de parlamentares classificam como indesculpável. O Citizen Lab agora recomenda triagem forense imediata de todos os ex-membros e assessores do PEGA, investigação formal pelo Parlamento Europeu e relatórios anuais sobre ameaças de vigilância à instituição.
Ao CyberScoop, o pesquisador sênior John Scott-Railton resumiu o mecanismo: entregar ferramentas de vigilância de firmas mercenárias a agências altamente secretas é “uma receita para o abuso de poder” (em tradução livre) — e previu que virão mais parlamentares hackeados.
O que a evidência não diz
O rigor exige demarcar as lacunas. Primeiro: não há atribuição. O Citizen Lab não afirma qual governo operou o Pegasus contra Kouloglou, e a sobreposição de infraestrutura com a campanha contra exilados russos e bielorrussos é um indício investigativo, não uma conclusão — o próprio laboratório admite não saber se a segunda infecção, de 2023, pertence ao mesmo operador.
Segundo: a ausência de indícios contra a Grécia não é prova de inocência definitiva, mas tampouco autoriza a conclusão inversa; não há evidência técnica de que serviços gregos tenham tido acesso ao Pegasus. Terceiro: as limitações dos dados forenses significam que podem ter existido outras infecções não capturadas — para mais ou para menos, o quadro é incompleto. Por fim, a NSO Group sustenta comercialmente que o Pegasus é vendido apenas a agências governamentais autorizadas para combate ao crime e ao terrorismo, posição registrada na cobertura da Al Jazeera; até a publicação das reportagens citadas, não localizamos resposta pública da empresa a este caso específico.
Conclusão
O que o caso estabelece com segurança é isto: um investigador oficial de abusos de spyware na Europa foi espionado, com o mesmo spyware que investigava, durante os períodos em que o material mais sensível do inquérito circulava — e ninguém foi responsabilizado, três anos depois. O que permanece aberto é a pergunta que deveria tirar o sono das instituições europeias: se nem o comitê criado para vigiar os vigilantes estava protegido, quantos dos seus colegas votam, negociam e deliberam hoje com um espião no bolso?
Fontes
- Citizen Lab — Espionage Against the European Parliament: Member of Committee Investigating Spyware Hacked with Pegasus (Relatório 194, 3/7/2026)
- Citizen Lab / Access Now — relatório de maio de 2024 sobre campanha Pegasus contra jornalistas russos e bielorrussos exilados
- The Record — Spyware found on phone of European Parliament member probing it
- Al Jazeera — EU lawmaker investigating surveillance hacked by Israeli spyware, report says
- CyberScoop — Someone infected a spyware probe overseer with spyware
- The Hacker News — European Parliament Member Investigating Spyware Was Hacked With Pegasus
ArcaVox · 03 de julho de 2026
Mais em Tecnologia

Um agente de IA passou 34 horas tentando implantar um backdoor real
Um agente de IA passou 34 horas tentando infiltrar malware num projeto real. Quando foi flagrado, negou e criou uma conta falsa para se elogiar.

O implante de “poeira neural” já está em uso em seres humanos — e não é nada do que a internet diz
Um dispositivo derivado da neural dust da DARPA está sendo implantado em pacientes desde setembro de 2025. Exige cirurgia abdominal e serve para esvaziar a bexiga.

A China aprovou o primeiro implante cerebral comercial do mundo. O resto do planeta ainda discute a definição de “dado neural”
Pequim resolveu aprovação e reembolso de uma interface cérebro-computador invasiva em 48 horas. Nos EUA, cinco leis estaduais e nenhuma obrigação clara.
