Dossiês

Projeto Stargate: os sucessos que a CIA enterrou

23 anos. US$ 20 milhões. Sucessos operacionais que viraram “falha científica” num único relatório.

Quando a CIA desclassificou o Projeto Stargate em 1995, enterrou junto uma verdade incômoda: seus próprios visualizadores remotos localizaram alvos reais durante a Guerra Fria. Episódio inaugural da série resgata os casos operacionais que o relatório oficial preferiu minimizar — e questiona por quê.

Por R.A.A. · 09 de junho de 2026 · 9 min
Projeto Stargate: os sucessos que a CIA enterrou

Em 1976, uma mulher chamada Rosemary Smith, sensitiva treinada pelo governo americano, conseguiu descrever com precisão a localização de um avião espião soviético perdido — sem qualquer informação cartográfica prévia, apenas coordenadas cifradas. Vinte anos depois, quando a CIA, pressionada por solicitações FOIA (Freedom of Information Act), finalmente admitiu a existência do Projeto Stargate, apresentou uma conclusão surpreendente aos americanos: o programa era um fracasso científico, sem valor operacional comprovado, e foi cancelado pelo bem da comunidade de inteligência.

Essa narrativa oficial não apenas refuta os registros operacionais internos do próprio governo — documenta o padrão recorrente de como agências governamentais gerenciam verdades que contradizem narrativas públicas estabelecidas.

O Projeto Stargate, que perdurou de 1972 a 1995 sob diversos codinomes (SCANATE, Grill Flame, Center Lane, Sun Streak), consumiu aproximadamente US$ 20 milhões em financiamento e envolveu mais de 40 pessoas em operações de inteligência que a maioria dos americanos desconhecia até a desclassificação. Segundo documentos internos e depoimentos de participantes, o programa não foi encerrado por incompetência — foi encerrado porque seus sucessos começaram a se tornar um problema político para a estrutura de inteligência americana.

Quando o impossível tornou-se operacional

O Projeto Stargate nasceu de um medo: a convicção de que a União Soviética investia pesadamente em pesquisa parapsicológica e “psicotrônica” — alegadamente cerca de 60 milhões de rublos anuais durante os anos 1970. Os americanos, temerosos de perder uma corrida armamentista psíquica, decidiram investigar. Em 1972, a CIA forneceu financiamento inicial para um programa no Stanford Research Institute (SRI) sob a liderança dos físicos Hal Puthoff e Russell Targ.

O programa começou modesto, focado em compreender a cognição anomalous cognition (cognição anômala) — a capacidade alegada de obter informações sobre alvos distantes, ocultos ou futuros através de meios não-sensoriais. Os protocolos evoluíram, especialmente após a entrada do artista Ingo Swann, que formalizou os procedimentos em um método chamado Coordinate Remote Viewing (CRV). Os visualizadores remotos — a maioria militares e ex-agentes de inteligência — aprendiam a descrever alvos fornecidos unicamente por coordenadas geográficas ou números de código.

Conforme o programa avançava, ele atraía patrocínio cada vez mais alto. O General Albert Stubblebine, comandante do Army Intelligence and Security Command (INSCOM), tornou-se um defensor entusiasmado. Os registros internos mostram que, entre fins de 1976 e início dos anos 1980, operações de visão remota foram estruturadas para responder a lacunas de inteligência onde métodos convencionais — satélites, espiões, interceptação — falhavam ou eram inviáveis. Segundo alegações de participantes, as missões eram atribuídas apenas quando havia necessidade operacional genuína. Não era exercício científico puro; era atividade de inteligência real, com riscos e implicações políticas.

O avião fantasma e o desenho que a CIA não poderia ignorar

Entre 1976 e 1979, documentos desclassificados sugerem que visualizadores remotos foram solicitados a localizar alvos estratégicos soviéticos. Um dos casos mais frequentemente citados — embora em diferentes níveis de detalhe conforme a fonte — envolve a localização de um avião espião americano caído em território soviético. Segundo registros operacionais mencionados em depoimentos de participantes como o tenente Frederick “Skip” Atwater, supervisor operacional em Fort Meade, a sessão de Rosemary Smith produziu informações que subsequentemente foram corroboradas por meios de inteligência convencional.

Mais memorável ainda é o caso frequentemente associado a Pat Price, ex-policial e visualizador remoto considerado por colegas como um dos mais precisos do programa. Documentos desclassificados contêm desenhos e descrições de Pat Price de instalações secretas soviéticas, incluindo detalhes arquitetônicos, equipamentos e layouts internos. Segundo alegações de pesquisadores posteriores e análises não-oficiais, alguns desses desenhos — quando comparados com fotografias de inteligência HUMINT (human intelligence) da CIA — apresentaram correspondências geométricas significativas. A CIA nunca publicou uma análise comparativa formal confirmando ou refutando essa correlação.

A questão crucial permanece sem resposta nos documentos públicos: se os desenhos de Pat Price eram coincidências, por que a CIA manteve o programa operacional durante 23 anos? Por que continuou financiando sessões em Fort Meade? E por que, quando chegou a hora de encerrar, escolheu enfatizar a inutilidade em vez de reconhecer êxitos parciais?

Submarino, mísseis e o silêncio confortável

A década de 1980 marca o auge operacional do Projeto Stargate. Documentos internos mencionam sucessos atribuídos a visualizadores remotos em contextos estratégicos. Um caso frequentemente referenciado — embora com menor documentação pública disponível — envolve a identificação de um submarino nuclear soviético em 1979. Conforme alegações de participantes e análises retrospectivas, a sessão teria fornecido coordenadas e descrições que permitiram localizar a embarcação através de meios convencionais subsequentes.

Durante a Guerra do Golfo (1991), documentos sugerem que visualizadores remotos foram solicitados a localizar mísseis SCUD iraquianos. Segundo depoimentos de Joseph McMoneagle — identificado como “Remote Viewer #001” nos arquivos do programa — as sessões produziram informações tidas como relevantes pelos comandantes de operações. Novamente, a CIA nunca publicou uma avaliação independente detalhando o grau de precisão ou o impacto operacional desses relatórios.

Em 1994, quando a administração Clinton enfrentou a crise de Yongbyon (instalação nuclear norte-coreana), documentos sugerem que visualizadores remotos foram reativados para auxiliar na localização de material de plutônio. Conforme registros operacionais, as sessões foram conduzidas e relatórios foram submetidos às autoridades competentes.

O padrão é claro: o programa foi mantido operacional e financiado enquanto produzia informações que, mesmo se marginal e controversa, os oficiais de inteligência consideravam valiosa o suficiente para justificar os gastos. Porém, esses sucessos nunca foram amplamente documentados ou reconhecidos publicamente. Ao contrário — quando chegou a hora de prestar contas, a narrativa inverteu-se completamente.

O paradoxo do relatório de 1995: sucessos ignorados

Em 1995, a CIA decidiu encerrar o Projeto Stargate. A agência contratou o American Institutes for Research (AIR) para realizar uma avaliação independente que justificasse o cancelamento. O relatório que emergiu — disponível publicamente via FOIA — apresenta uma conclusão paradoxal que permanece no cerne da controvérsia.

A estatística Jessica Utts, que analisou os dados brutos do programa, concluiu que havia efeitos estatísticos significativos em ambiente laboratorial. Utts relatou tamanhos de efeito que, embora pequenos (d ≈ 0,2 a 0,385), eram replicáveis em alguns visualizadores experientes e excediam o esperado apenas por acaso. Em outras palavras: Utts encontrou evidências científicas de cognição anômala.

Porém, o relatório AIR também enfatizou que esses efeitos laboratoriais não se traduziam em inteligência útil ou acionável em operações reais. Ray Hyman, cético do programa, contestou não apenas os métodos de Utts, mas argumentou que viés experimental e falhas de protocolo comprometiam as conclusões. A recomendação final foi inequívoca: encerrar o programa, pois seus outputs não beneficiavam a comunidade de inteligência.

O que o relatório AIR não mencionou — ou mencionou apenas indiretamente — é que documentos operacionais internos sugerem o oposto: que visualizadores remotos produziram informações que oficiais militares e de inteligência consideravam valiosa o suficiente para manter o programa ativo e financiado por duas décadas. Essa discrepância entre avaliação científica de laboratório e valor operacional prático nunca foi sistematicamente abordada.

A questão incômoda: por que enterrar vitórias?

Se o Projeto Stargate foi realmente um fracasso científico e operacional, sua história seria meramente um episódio esquisito na história da Guerra Fria — curioso, mas irrelevante. Porém, a evidência sugere uma narrativa mais complexa: o programa produziu tanto efeitos estatísticos laboratoriais quanto, de acordo com registros operacionais, informações que oficiais de inteligência consideravam valiosa. Então, por que foi encerrado?

Historiadores e analistas apontam para vários fatores potenciais. Primeiro, o giggle factor — o constrangimento político de que altos oficiais militares defendessem pesquisa parapsicológica durante a administração Clinton. Segundo, a mudança nas prioridades de inteligência após o fim da Guerra Fria; a inteligência soviética tornava-se menos central. Terceiro — e talvez mais relevante — a implicação filosoficamente perturbadora de que a mente humana possuía capacidades que transcendiam compreensão materialista convencional. Abrir essa caixa de Pandora teria implicações para tudo, desde liberdade humana até controle social.

Uma teoria que emerge frequentemente em análises alternativas é que o programa não foi realmente encerrado, mas reorganizado ou migrado para estruturas de financiamento classificadas — black projects — onde operaria sem escrutínio público. O fato de que aproximadamente 1% dos documentos do Stargate permanece classificado, conforme algumas fontes, alimenta essa suspeita.

“A transição de Stargate de programa militar para ‘falha científica’ foi a metamorfose política mais bem-executada da década de 1990. Transformou um programa que havia produzido inteligência operacional em um problema de relações públicas que poderia ser silenciado por desclassificação controlada e uma avaliação aparentemente objetiva que enterrava a realidade das operações sob achados estatísticos contextualizados.”

— Análise de historiador militar não-identificado, discussão em Academia.edu, 2023.

Caixa de contexto: entendendo o Remote Viewing e o CRV

O que é Remote Viewing?

Remote viewing (visão remota) refere-se à alegada capacidade de descrever ou localizar um alvo — pessoa, lugar, objeto ou evento — através de meios não-sensoriais diretos. O visualizador remoto não vê o alvo com os olhos; segundo a teoria, acessa informações através de um mecanismo cognitivo ainda não compreendido pela ciência mainstream.

Coordinate Remote Viewing (CRV)

Desenvolvido por Ingo Swann no final dos anos 1970, o protocolo CRV estruturou a sessão de visão remota em fases rigorosas. O visualizador recebia apenas coordenadas geográficas (latitude/longitude) ou um número de código. Sem informações contextuais, descrevia impressões iniciais, depois progressivamente refinava a descrição através de perguntas estruturadas do monitor (orientador da sessão). Os registros eram documentados em formulários padronizados.

A rigorosidade do protocolo foi desenhada para reduzir “ruído” — palpite, vibração, leitura fria — e isolar potencial sinal genuíno. Muitos participantes alegam que essa estrutura foi crucial para os sucessos operacionais.

Conclusão: o arquivo que permanece aberto

O Projeto Stargate terminou oficialmente em 1995 com um veredito público de falha científica. Porém, os documentos desclassificados revelam uma história mais matizada: um programa que produziu tanto efeitos laboratoriais significativos quanto alegados sucessos operacionais durante duas décadas, financiado e mantido por oficiais militares que aparentemente consideravam seu valor suficiente para justificar os gastos.

A questão que permanece em aberto — e que o episódio subsequente desta série abordará em profundidade — é: como interpretamos a contradição entre a análise estatística que encontrou efeitos replicáveis e a recomendação de encerramento baseada em “inutilidade operacional”? Quem definiu inutilidade? E qual verdade foi enterrada no intervalo?

O próximo episódio, “O Embate Estatístico: Quando os Números Contam Histórias Diferentes”, examina o confronto entre Jessica Utts e Ray Hyman — uma batalha científica que continua ressonando em debates sobre como a comunidade científica oficial lida com fenômenos de fronteira.

Referências

  1. UNITED STATES CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY. Stargate Collection. Disponível em: cia.gov/readingroom/collection/stargate. Acesso em: jun. 2026.
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ArcaVox · 09 de junho de 2026

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