Programas Secretos

49 anos depois, o Congresso reabre o caso MKUltra — e ouve que a CIA mentiu

Em 30 de junho de 2026, a Task Force de Desclassificação da Câmara dos EUA realizou a primeira audiência sobre o MKUltra em 49 anos. Testemunhas afirmaram que a CIA enganou o Congresso em 1977 — e que trechos sobre os efeitos do LSD foram s

Por R.A.A. · 11 de julho de 2026 · 5 min
49 anos depois, o Congresso reabre o caso MKUltra — e ouve que a CIA mentiu

A acusação central: “o Congresso nunca soube a verdade”

O momento mais contundente da audiência veio do jornalista investigativo Tom O’Neill, autor de Chaos: Charles Manson, the CIA, and the Secret History of the Sixties. Segundo o resumo oficial publicado pelo próprio Comitê, O’Neill testemunhou acreditar que a agência enganou o Congresso em 1977, quando caracterizou o MKUltra como um fracasso completo.

A alegação mais específica de O’Neill: relatórios internos da CIA concluíam que os efeitos do LSD e de drogas similares sobre estados dissociativos jamais haviam sido estudados — e, segundo seu testemunho, essas passagens foram removidas da versão entregue ao Congresso. Nas palavras dele, registradas no resumo oficial, “a discrepância não poderia ser mais gritante”.

Importante: trata-se de testemunho e interpretação de um pesquisador, não de conclusão oficial do Comitê. O’Neill ofereceu formalmente seus documentos como prova, mas nenhum relatório congressual validando a acusação foi publicado até o fechamento desta matéria.

O historiador Stephen Kinzer, pesquisador sênior da Universidade Brown e biógrafo do químico-chefe do programa, Sidney Gottlieb, seguiu na mesma linha. Em seu testemunho, afirmou que o MKUltra conduziu os experimentos mais extremos já realizados em seres humanos por uma agência do governo americano, qualificando-os como tortura médica — e que operavam em prisões, clínicas e casas seguras nos EUA, na Europa, na Ásia e na América Latina.

O programa que sobreviveu à própria destruição

Para entender por que a audiência de 2026 importa, é preciso voltar a 1973. Naquele ano, com autorização do então diretor da CIA, Richard Helms, a maior parte dos arquivos do MKUltra foi destruída — fato reconhecido pela própria agência no registro oficial da audiência conjunta do Senado de 1977.

O programa só não desapareceu por completo por causa de um erro de arquivamento. Em 1977, sete caixas de registros financeiros — guardadas no depósito errado — escaparam da destruição e foram localizadas em resposta a um pedido via Lei de Acesso à Informação (FOIA). Foi a contabilidade, não a consciência institucional, que traiu o segredo. Desses papéis emergiu o número que se tornou referência: 149 subprojetos, segundo o testemunho do então diretor Stansfield Turner ao Senado.

O mesmo registro de 1977 documenta o caso mais emblemático do programa: a morte de Frank Olson, cientista civil do Exército que, em 1953, caiu da janela de um hotel em Nova York cerca de uma semana após receber LSD sem seu conhecimento, em um encontro convocado pela CIA.

O que a força-tarefa quer agora

Luna foi explícita sobre o enquadramento que pretende dar ao caso. Segundo o resumo oficial do Comitê, ela classificou a administração de drogas sem consentimento, a tortura psicológica e o uso de prisioneiros e pacientes como cobaias como crimes contra a humanidade — cometidos pela CIA e seguidos da destruição de evidências ordenada pela direção da agência.

“O povo americano merece o registro completo. As vítimas e suas famílias merecem reconhecimento, responsabilização e justiça.” — Anna Paulina Luna, presidente da Task Force, em declaração registrada no resumo oficial da audiência

Kinzer apresentou ao Comitê um pedido concreto e pouco comentado: além de buscar documentos desconhecidos, remover as tarjas dos documentos já liberados. Reams de papéis do MKUltra circulam com trechos censurados desde os anos 1970 sob argumento de segurança nacional — argumento que, segundo ele, não se sustenta passados 70 anos.

Sobre vítimas, o quadro segue nebuloso. Questionado pelo deputado Scott Perry sobre estimativas, O’Neill respondeu que os 149 subprojetos conhecidos são fração do total e especulou que o número de afetados poderia chegar às dezenas de milhares — ressalvando tratar-se de conjectura. Perguntado se há algum esforço recente do governo americano para localizar e identificar vítimas, respondeu: não que ele saiba. Kinzer apontou o Canadá, onde experimentos financiados pela CIA ocorreram em um hospital psiquiátrico, como exemplo de país que buscou identificar e compensar vítimas.

O outro lado do arquivo

O rigor exige registrar o que a audiência não produziu — e o que a versão oficial sustenta.

Primeiro: nenhum documento novo provando continuidade do programa foi apresentado publicamente. As afirmações de que o MKUltra “não fracassou” ou de que seus métodos sobreviveram são, até aqui, teses de pesquisadores — não achados do Comitê.

Segundo: a posição da CIA é de negação categórica. Em julho de 2024, quando teorias nas redes sociais tentaram vincular o programa ao atirador que atentou contra Donald Trump, um porta-voz da agência declarou ao Gizmodo que as alegações eram completamente falsas e absurdas, que o programa foi encerrado há mais de 40 anos e que a documentação desclassificada está disponível publicamente em CIA.gov.

Terceiro: a própria audiência teve sua credibilidade disputada. Como relatou o Washington Examiner, parte da sessão derivou do tema quando deputados republicanos passaram a interrogar a testemunha convidada pela minoria democrata, a ex-pesquisadora do NIH Elizabeth Ginexi, sobre a gestão da covid-19 — assunto sem relação com o MKUltra, como a própria testemunha admitiu ao dizer não ser especialista no programa. Críticos veem na audiência tanto um esforço legítimo de transparência quanto um palco político.

Por fim, vale lembrar que já em 1977 os senadores abriram os trabalhos enfatizando que os programas de maior preocupação haviam sido encerrados — a mesma posição que a CIA mantém hoje.

Conclusão: entre o documentado e o irrecuperável

O estado da evidência, honestamente resumido: os abusos do MKUltra são fato histórico documentado pelo próprio governo americano; a acusação de que a CIA enganou o Congresso em 1977 é testemunho relevante, mas ainda não validado por investigação oficial; e a tese de continuidade do programa não tem, até aqui, nenhum documento público que a sustente. Entre esses três estratos — o provado, o alegado e o especulado — está a razão de esta audiência importar.

A destruição de 1973 garante que o arquivo completo jamais será recuperado. A pergunta que fica para o leitor é a que a própria força-tarefa terá de responder nos próximos meses: as novas desclassificações prometidas vão preencher as lacunas — ou apenas confirmar o tamanho do que foi apagado?


Leitura complementar8 títulos · inclui obras que contradizem esta matéria

Esta lista não está aqui para confirmar o que você acabou de ler. As etiquetas mostram onde cada obra se posiciona — inclusive quando é contra o que a matéria defende.

  • The Search for the "Manchurian Candidate": The CIA and Mind ControlJohn Marks

    Fonte primária

    O livro fundador, construído sobre os documentos financeiros que sobreviveram à destruição ordenada por Helms. Tudo que veio depois deriva daqui.

    Publicado em 1979. Sem edição em português localizada.

    Ver na Amazon
  • Poisoner in Chief: Sidney Gottlieb and the CIA Search for Mind ControlStephen Kinzer

    Sustenta a tese

    Biografia de Gottlieb com pesquisa nova. A narrativa mais legível do programa — e a mais indicada para o leitor que chega pela matéria.

    Publicado em 2019. Edição em português não verificada.

    Ver na Amazon
  • A Question of Torture: CIA Interrogation, from the Cold War to the War on TerrorAlfred W. McCoy

    Sustenta a tese

    Traça a linha direta entre pesquisa financiada pelo MKUltra, o manual KUBARK e Abu Ghraib.

    Publicado em 2006. Sem edição em português localizada.

    Ver na Amazon
  • Chaos: Charles Manson, the CIA, and the Secret History of the SixtiesTom O'Neill

    Sustenta a tese

    Vinte anos de apuração. O valor está no método: o autor rotula explicitamente onde a evidência acaba e a hipótese começa.

    Publicado em 2019. Edição em português não verificada.

    Ver na Amazon
  • A Terrible Mistake: The Murder of Frank Olson and the CIA's Secret Cold War ExperimentsH. P. Albarelli Jr.

    Confiabilidade contestada

    A investigação mais extensa sobre a morte de Olson, mas com padrão de sourcing frouxo e fontes anônimas não verificáveis. Útil como inventário de pistas, não como prova.

    Publicado em 2009. Sem edição em português localizada.

    Ver na Amazon
  • Havana Syndrome: Mass Psychogenic Illness and the Real Story Behind the Embassy Mystery in CubaRobert E. Bartholomew e Robert W. Baloh

    Contradiz a tese

    O contraponto explícito à matéria sobre micro-ondas e V2K: doença psicogênica de massa como explicação concorrente. Baloh é neurologista.

    Publicado em 2020. Sem edição em português localizada.

    Ver na Amazon
  • Operation Paperclip: The Secret Intelligence Program that Brought Nazi Scientists to AmericaAnnie Jacobsen

    Sustenta a tese

    Contexto institucional de como pesquisa eticamente inaceitável foi importada e normalizada dentro do aparato americano.

    Publicado em 2014. Edição em português não verificada.

    Ver na Amazon
  • Joint Hearing: Project MKULTRA, The CIA's Program of Research in Behavioral ModificationComissão Church, Senado dos EUA

    Fonte primária

    Documento primário, público e citável. Deveria estar linkado em toda matéria da vertente.

    Audiência de 1977. Documento público em inglês.

    Ver na Amazon

Links de afiliado. Como Associado da Amazon, o ArcaVox recebe comissão por compras qualificadas, sem custo adicional para você. A seleção é editorial e independente: nenhum título entra ou sai desta lista por razão comercial.

Fontes

ArcaVox · 11 de julho de 2026

Continuar lendo

Mais em Programas Secretos