Os Foguetes de 1529 São Reais. O Gênio Solitário Que os Desenhou, Não.
Num arquivo da Transilvânia existe um volume do século XVI com desenhos de foguetes de três estágios. O documento é real e a datação é sólida. Mas o volume tem quatro autores, cem anos de camadas — e o próprio Conrad Haas registrou isso na

Isso não é lenda, não é fraude e não é interpretação forçada de desenho ambíguo. O volume é real, está catalogado e foi descrito folha a folha por medievalistas alemães. Antes que ele viesse à tona, a primeira descrição europeia documentada de um foguete de três estágios era atribuída ao polaco-lituano Kazimierz Siemienowicz, em obra publicada em 1650. O material de Sibiu antecipa esse registro em cerca de um século. Isso é sólido.
O que não é sólido é a história que se conta sobre ele. Nos últimos vinte anos, o volume virou insumo de um gênero muito específico de conteúdo — o do conhecimento perdido, do inventor solitário, da tecnologia à frente do tempo que a humanidade inexplicavelmente esqueceu. Nessa versão, um engenheiro chamado Conrad Haas concebeu sozinho o foguete multiestágio quatrocentos anos antes da Apollo, chegou a lançar um em público, e o mundo simplesmente não percebeu.
Quase nada disso resiste a uma tarde de verificação. E a pessoa que primeiro deixou isso claro foi o próprio Conrad Haas, de próprio punho, na folha de rosto.
O que está no arquivo
A Academia Bávara de Ciências mantém um catálogo dos manuscritos ilustrados de língua alemã da Idade Média — conhecido pela sigla KdiH. É ali que está publicada a descrição codicológica do Varia II 374, assinada pelo medievalista Rainer Leng: a análise técnica do objeto físico — papel, caligrafias, fólios, marcas de posse, datações —, e não uma resenha de segunda mão. É a fonte mais próxima do documento que existe fora do próprio arquivo.
Conrad Haas (c. 1509–1576) era engenheiro militar. Nascido em Dornbach, hoje distrito de Viena, entrou no serviço do imperador Fernando I e, a partir de 1551, foi mestre de arsenal — Zeugmeister — em Hermannstadt, a atual Sibiu, então na fronteira entre o Império Habsburgo e o Otomano. Era o cargo de quem cuida da artilharia de uma praça de guerra.
Na parte do volume que lhe pertence, Leng contabiliza 203 desenhos à pena, parcialmente aquarelados. Cerca de dois terços trazem data — entre 1529 e 1568 — e assinatura: CH ou HGH. Há até um autorretrato, no fólio 209r. Não é rabisco. É o caderno de trabalho de um profissional, mantido ao longo de quase quarenta anos.
O aviso na folha de rosto
A seção de Haas abre no fólio 112r com uma folha de rosto escrita por ele. Leng a transcreve. Haas registra que o livro foi desenhado, reunido — e em parte inventado — por ele:
“…desenhado e reunido, e em parte inventado, por Conrad Haas…”
— Folha de rosto da seção de Conrad Haas, fólio 112r, Varia II 374. No original, em alemão do século XVI: “…gerissen vnd züsamen getragen worden vnd züm teil erfünden dürch Connrad haasen…” — transcrição de Rainer Leng no KdiH 39.5.7
Duas expressões carregam a frase. A primeira, zusammengetragen, quer dizer compilado, reunido de outras fontes. A segunda, zum Teil erfunden, quer dizer inventado — mas em parte. Na mesma página, Haas ainda se declara pertencente à linhagem do Haasenhoff, de Landshut: a família do homem que havia começado o volume três gerações antes dele.
Não houve nada a desmascarar aqui. Nenhum arquivo secreto, nenhuma revisão corajosa. Conrad Haas descreveu o próprio método na capa do próprio caderno, em 1529, e a informação ficou disponível por meio milênio para quem abrisse o livro.
Quatro camadas, um século
O Varia II 374 é um compósito. Segundo a análise de Leng, não é obra de um autor:
| Parte | Fólios | Autoria | Datação |
|---|---|---|---|
| 1 | 1r–36v | O Livro dos Fogos de Artifício de 1420; caligrafia atribuída a Hans Haasenwein | concluída em 1458 |
| 2 | 37r–68v | Anônimo, um manual do mestre de artilharia | último quarto do séc. XV |
| 3 | 69r–111r | Johannes Formschneider (?), catálogo de imagens sem legendas | fim do séc. XV |
| 4 | 111(2)r–391r | Conrad Haas, A Arte da Artilharia | 1529–1568 |
A base de tudo é o Livro dos Fogos de Artifício de 1420 — no original, Feuerwerkbuch —, tratado de pirotecnia militar que circulava amplamente pela Europa de língua alemã no século XV. Sobre ele se acumularam as camadas seguintes. Haas herdou o conjunto e o continuou, em papéis diferentes dos originais.
E há uma segunda cautela que a versão popular nunca menciona: a própria atribuição a Haasenwein é insegura. Leng anota que a caligrafia da primeira parte é apenas “presumivelmente” dele, e que as datações que remetem a 1400 e a 1417–1460 são secundárias, lançadas pela mão de Haas no século XVI. No máximo, escreve ele, podem reivindicar transmissão oral de antigos possuidores. O compilador é a única fonte da genealogia que o antecede.
Como a história cresceu
O caminho entre o arquivo e a internet é rastreável, e o padrão é constante: a cada passo de distância da fonte, o relato ganha um detalhe e perde uma ressalva.
- 1961 — o manuscrito é localizado nos arquivos de Sibiu pelo pesquisador romeno Doru Todericiu.
- 1967 — Todericiu publica “Técnica de foguetes no século XVI” na Technikgeschichte, revista alemã de história da técnica (34, p. 97–114). No mesmo ano, Bernhard Haage publica um estudo sobre o caderno de Haasenwein no Sudhoffs Archiv, periódico alemão de história da ciência (51, p. 268–269).
- 1969 — sai o livro de Todericiu pela Editura Academiei da Romênia socialista. O KdiH e o registro bibliográfico da Biblioteca Nacional da França (ark:/12148/cb35353848j) dão o título com o intervalo (1400–1569). Ou seja: nem o autor do livro chamou aquilo de “o manuscrito de Haas” — o título dele já anunciava um volume que começa no século XV.
- 1970 — Todericiu publica no Sudhoffs Archiv (54, p. 211s.) sobre uma receita de aguardente na parte de Haasenwein. A camada anterior de autoria está documentada em revista acadêmica desde então.
- 1983/84 — documentário de Frieder Schuller sobre Haas, com participação de Hermann Oberth, pioneiro da astronáutica alemã. (A Wikipedia alemã data 1983, para a ORF; a inglesa, 1984.)
- 2005 — Hans Barth publica em Heilbronn a monografia Conrad Haas: pioneiro dos foguetes e humanista.
- 2010 — o KdiH publica a descrição de Leng, com as quatro camadas e a transcrição da folha de rosto. Em alemão, em catálogo especializado, atrás de nenhum paywall.
- 2008–2017 — a empresa romena ARCAspace batiza sua família de foguetes de “Haas”). Até 2020, nenhum havia sido lançado.
- 2017 — o Ancient Origins publica que o desenho de Haas “foi usado em vários programas espaciais, incluindo Mercury, Gemini e Apollo”. Não foi. E data a morte de Haas em 1579, contra 1576 das demais fontes.
- 2021 — o Amusing Planet consolida a versão popular, com 450 páginas e um convite feito a Haas por um príncipe que, em 1551, tinha 17 anos e não era príncipe de nada.
- 2026 — modelos de linguagem treinados nessa camada devolvem o pacote inteiro, com fluência e sem ressalva, a quem perguntar.
Onde o texto se soltou da fonte
“Demonstração pública de um foguete em Sibiu, em 1555.” Não há registro primário conhecido. A afirmação aparece em sites populares — o próprio Ancient Origins lista, entre suas referências, um texto de 2014 intitulado, em tradução livre, “Lançamento de foguete ao espaço em Sibiu, Romênia, ocorreu em 1555”. Nenhuma fonte acadêmica consultada por esta redação documenta o evento. Nem o ano de 1555, aliás, aparece na descrição de Leng.
“450 páginas.” Leng descreve o objeto: papel, 392 folhas, cerca de 210 × 160 mm. Números como 282 ou 450 circulam em fontes secundárias sem lastro codicológico.
“Um gênio à frente do tempo.” Tratados militares do século XVI eram cumulativos por natureza — copiar, reunir e ampliar era o método, não o desvio. E o vetor talvez aponte para o lado oposto do que se supõe: Leng observa que, se as datações dos desenhos de Haas estiverem corretas, suas imagens e textos podem ter servido, ao menos em parte, de modelo para o tratado impresso de Johann Schmidlap, publicado em Nuremberg em 1561. Haas não seria o elo perdido de uma corrente esquecida, mas um elo anterior de uma corrente que já se conhecia.
Contraditório
Compilar não é plagiar. Reunir e ampliar era o procedimento normal da literatura técnica do período, e Haas foi explícito sobre isso. A parte 4 pode conter invenção substantiva: são 203 desenhos, dois terços datados e assinados. Leng, seguindo Barth, observa que justamente os não datados e não assinados podem ser as apropriações de outras obras — o que implica que os datados e assinados podem ser dele. A fronteira está desenhada no manuscrito, fólio a fólio.
Esta redação não leu o manuscrito. Nem ninguém que escreve sobre ele em português. Nossa fonte principal é uma descrição especializada do original feita por um medievalista — muito acima da cadeia popular, mas ainda não é o objeto.
Todericiu publicou em periódicos reais. Technikgeschichte e Sudhoffs Archiv são revistas acadêmicas alemãs. Foi ele quem documentou, em 1970, a camada Haasenwein — quer dizer, o descobridor do manuscrito publicou por conta própria a informação que desinfla a narrativa construída em torno dele. Tratá-lo como propagandista, sem ter lido seus artigos, seria cometer contra ele exatamente o pecado que esta matéria descreve.
Batizar foguetes é homenagem, não fabricação de mito. A ARCAspace chamar seus veículos de “Haas” é prática corriqueira na indústria aeroespacial. Isoladamente, não prova nada.
O que continua em aberto
A datação da parte de Haas aparece como 1529–1568 na descrição de Leng, contra 1529–1556 em outras fontes. A morte de Haas oscila entre 1576 e 1579. E a Wikipedia alemã afirma que o original estaria nos Arquivos Nacionais de Bucareste, com um fac-símile em Sibiu — enquanto o KdiH cataloga o objeto como estando em Sibiu, com uma marca de posse em latim que o identifica como parte do arquivo da cidade.
Fica a pergunta que ninguém escrevendo na internet pode responder hoje, inclusive nós: dos 203 desenhos da parte de Haas, quais são invenção dele e quais são cópia de tradição anterior? A resposta está nos fólios datados e assinados, no arquivo, esperando alguém que abra o volume.
É exatamente o que ninguém fez por quatrocentos anos. E, a julgar pela última década de publicações sobre o assunto, o hábito não se perdeu — só ficou mais rápido.
Fontes
Todas as URLs abaixo foram acessadas e conferidas por esta redação em 15 de julho de 2026.
- Leng, Rainer. “Feuerwerks- und Kriegsbücher. Johannes Formschneider und Umfeld. Handschrift Nr. 39.5.7 — Sibiu (Hermannstadt), Arhivele Statului, Ms. Varia II 374.” In: Katalog der deutschsprachigen illustrierten Handschriften des Mittelalters, Band 4/2, München, 2010. Bayerische Akademie der Wissenschaften. Disponível em: kdih.badw.de/datenbank/handschrift/39/5/7
- Wikipedia (DE). “Conrad Haas.” Disponível em: de.wikipedia.org/wiki/Conrad_Haas
- Wikipedia (EN). “Conrad Haas.” Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Conrad_Haas
- Wikipedia (EN). “Multistage rocket.” Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Multistage_rocket
- Wikipedia (EN). “Haas (rocket).” Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Haas_(rocket))
- Digital Treasures (ICARUS / Creative Europe). “On the making of cannons and missiles.” 20 fev. 2021. Disponível em: digitaltreasures.eu/on-the-making-of-cannons-and-missiles
- Ancient Origins. “Conrad Haas’ Flying Javelin: Yes, It Is 16th Century Rocket Science.” 4 dez. 2017. Citado como objeto de análise, não como fonte de fato. Disponível em: ancient-origins.net
- Amusing Planet. “Conrad Haas: The 16th Century Rocket Pioneer.” 9 mar. 2021. Citado como objeto de análise, não como fonte de fato. Disponível em: amusingplanet.com
- Bibliothèque nationale de France. Registro bibliográfico de Preistoria rachetei moderne, manuscrisul de la Sibiu (1400–1569). Disponível em: ark:/12148/cb35353848j
ArcaVox · 16 de julho de 2026
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