CIA amplia desclassificação do manual KUBARK de 1963 após apelação de arquivo independente
Após apelação, a CIA liberou a versão mais completa do manual KUBARK de 1963. O que foi restaurado, e o que segue secreto.

O documento não é uma novidade absoluta. Ele, em verdade, circula em versões censuradas desde 1997. O que muda agora é a margem. A CIA restaurou trechos antes classificados sobre a coordenação de interrogatórios clandestinos no exterior, referências a diretivas internas e uma estatística que estava inteiramente oculta nas liberações anteriores. Entretanto, manteve censurados nomes de códigos, procedimentos operacionais e referências a diretivas, o que nos impede de tratar esta liberação como um “documento finalmente aberto”.
O que a apelação destravou
O caso tramitou como pedido de Revisão de Desclassificação Obrigatória (Mandatory Declassification Review, MDR) nº EOM-2021-00117, protocolado pela iniciativa do grupo The Black Vault em maio de 2021. Uma primeira resposta, em 9 de fevereiro de 2024, liberou pouca coisa e manteve tarjas sob a Ordem Executiva 13526 (Seções 3.3(h)(2) e 6.2(d)). O grupo apelou em 1º de março de 2024. Em carta datada de 21 de julho de 2026, o Painel de Liberação da Agência (Agency Release Panel) informou que a decisão anterior poderia ser revista para liberar mais informação.
O download do documento completo, com 132 páginas, está disponível no próprio The Black Vault.
A engrenagem administrativa dos interrogatórios no exterior
O documento liberado esclarece como a CIA coordenava interrogatórios clandestinos conduzidos por outras agências dos Estados Unidos fora do país. O texto, ainda, identifica a Diretiva ODAPSE nº 5 como a norma que definia a responsabilidade da Agência sobre a coordenação dessas atividades no exterior, e cita diretrizes internas de execução que estavam tarjadas (as Chief/KUBARK Directives 5/1 e 5/2).
Nada disso, contudo, é confissão de operações. O que o texto restaura é a moldura burocrática que as organizava, e dá contorno documental a algo que, por décadas, existia apenas como conjectura: o arranjo formal pelo qual a CIA se colocava como coordenadora de interrogatórios conduzidos por outras agências americanas longe do território dos Estados Unidos.
O manual também recupera uma referência que instruía os interrogadores a consultar o Field Double Agent Guide, de agosto de 1960, ao planejar o interrogatório de agentes duplos. Documentos com esse título só entraram no domínio público a partir de 2022, nas liberações dos Arquivos do Assassinato de Kennedy pelo Arquivo Nacional dos Estados Unidos, o que costura, no papel, a rede de manuais de contrainteligência do início da Guerra Fria.
Os 70% que estavam sob tarja
Entre as passagens desclassificadas, a estatística é aquela de maior apelo.
Ao discutir o interrogatório de defectores soviéticos, o manual afirma que uma parcela deles se revelou composta por agentes duplos, com estimativas que chegaram a setenta por cento durante alguns anos após 1955.
O número precisa ser lido com o cuidado. O manual não o apresenta como fato histórico verificado, e sim como estimativa operacional, uma métrica interna de paranoia institucional no auge da Guerra Fria, não uma contagem auditada de defectores. É um dado sobre como a CIA avaliava o risco de defecções controladas, não sobre quantas realmente eram.
Contraditório: quanto isso muda, de fato
Aqui a calibragem importa. O próprio The Black Vault registra que boa parte das passagens liberadas é de natureza administrativa e que a apelação interposta não altera de forma fundamental o entendimento histórico do KUBARK. O que há é incremento documental, não revelação inédita, visto que o núcleo do método (a arquitetura de coerção psicológica que tornou o manual infame) já era público desde a liberação de 1997, quando o texto foi entregue ao jornal The Baltimore Sun e depois hospedado pelo Arquivo de Segurança Nacional (National Security Archive), organização acadêmica ligada à Universidade George Washington e distinta da agência de inteligência de nome parecido.
Também permanece o essencial do que ainda não se vê.
Frases inteiras, identificadores organizacionais, procedimentos e referências a diretivas continuam tarjados sob a Ordem Executiva 13526 e exceções da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act, FOIA). Há anos, a versão oficial dos Estados Unidos é que o KUBARK é obsoleto e não representa a política de interrogatório atual, afirmação que convive mal com o fato de que partes do texto seguem consideradas sensíveis o bastante para permanecer secretas mais de seis décadas depois.
Conclusão
O que a CIA liberou não reescreve a história do KUBARK, apenas ajusta suas margens. Restaura a moldura administrativa de interrogatórios no exterior, reconecta o manual a outros documentos de contrainteligência e devolve ao público uma estatística que diz mais sobre a mentalidade da Agência do que sobre os agentes que ela interrogava. É desclassificação por subtração de tarjas. Ela é útil, verificável, mas, ainda assim, incompleta.
A pergunta que fica é a de sempre nesses processos: se, seis décadas depois, ainda há trechos de um manual de 1963 protegidos por ordem executiva, o que exatamente continua sendo perigoso? A informação em si, ou o precedente de admitir que ela existiu?
Leitura complementar8 títulos · inclui obras que contradizem esta matéria
Esta lista não está aqui para confirmar o que você acabou de ler. As etiquetas mostram onde cada obra se posiciona — inclusive quando é contra o que a matéria defende.
The Search for the "Manchurian Candidate": The CIA and Mind ControlJohn Marks
Fonte primáriaO livro fundador, construído sobre os documentos financeiros que sobreviveram à destruição ordenada por Helms. Tudo que veio depois deriva daqui.
Publicado em 1979. Sem edição em português localizada.
Ver na AmazonPoisoner in Chief: Sidney Gottlieb and the CIA Search for Mind ControlStephen Kinzer
Sustenta a teseBiografia de Gottlieb com pesquisa nova. A narrativa mais legível do programa — e a mais indicada para o leitor que chega pela matéria.
Publicado em 2019. Edição em português não verificada.
Ver na AmazonA Question of Torture: CIA Interrogation, from the Cold War to the War on TerrorAlfred W. McCoy
Sustenta a teseTraça a linha direta entre pesquisa financiada pelo MKUltra, o manual KUBARK e Abu Ghraib.
Publicado em 2006. Sem edição em português localizada.
Ver na AmazonChaos: Charles Manson, the CIA, and the Secret History of the SixtiesTom O'Neill
Sustenta a teseVinte anos de apuração. O valor está no método: o autor rotula explicitamente onde a evidência acaba e a hipótese começa.
Publicado em 2019. Edição em português não verificada.
Ver na AmazonA Terrible Mistake: The Murder of Frank Olson and the CIA's Secret Cold War ExperimentsH. P. Albarelli Jr.
Confiabilidade contestadaA investigação mais extensa sobre a morte de Olson, mas com padrão de sourcing frouxo e fontes anônimas não verificáveis. Útil como inventário de pistas, não como prova.
Publicado em 2009. Sem edição em português localizada.
Ver na AmazonHavana Syndrome: Mass Psychogenic Illness and the Real Story Behind the Embassy Mystery in CubaRobert E. Bartholomew e Robert W. Baloh
Contradiz a teseO contraponto explícito à matéria sobre micro-ondas e V2K: doença psicogênica de massa como explicação concorrente. Baloh é neurologista.
Publicado em 2020. Sem edição em português localizada.
Ver na AmazonOperation Paperclip: The Secret Intelligence Program that Brought Nazi Scientists to AmericaAnnie Jacobsen
Sustenta a teseContexto institucional de como pesquisa eticamente inaceitável foi importada e normalizada dentro do aparato americano.
Publicado em 2014. Edição em português não verificada.
Ver na AmazonJoint Hearing: Project MKULTRA, The CIA's Program of Research in Behavioral ModificationComissão Church, Senado dos EUA
Fonte primáriaDocumento primário, público e citável. Deveria estar linkado em toda matéria da vertente.
Audiência de 1977. Documento público em inglês.
Ver na Amazon
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Fontes
- The Black Vault: CIA Declassifies Additional Portions of 1963 KUBARK Manual After The Black Vault Appeal (28/07/2026)
- Manual KUBARK: versão da apelação, 132 páginas (PDF)
- The Black Vault: The July 1963 KUBARK Counterintelligence Interrogation Manual (resposta inicial de fevereiro de 2024)
- Arquivo Nacional dos Estados Unidos: Field Double Agent Guide, nos JFK Assassination Records (PDF)
ArcaVox · 02 de agosto de 2026
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