Ciência

6G: a corrida por altas frequências e o debate científico que não fechou

A União Internacional de Telecomunicações (ITU) já definiu o rumo do 6G rumo a frequências cada vez mais altas. A ciência sobre efeitos de longo prazo, porém, ainda discute — e a própria OMS acaba de entrar na disputa.

Por R.A.A. · 22 de julho de 2026 · 8 min
6G: a corrida por altas frequências e o debate científico que não fechou

Em novembro de 2023, na Assembleia de Radiocomunicações da União Internacional de Telecomunicações (ITU), o nome da próxima geração de redes móveis foi oficializado: IMT-2030, o que a indústria chama de 6G. No mesmo ato foi aprovada a Recomendação ITU-R M.2160 — o documento de framework e objetivos gerais da tecnologia.

É importante calibrar o que esse documento é e o que ele não é. A M.2160 não são “requisitos técnicos” finais: ela é a visão-guia, equivalente ao que gerações anteriores chamavam de “IMT-Vision”. Estabelece tendências tecnológicas, cenários de uso, capacidades esperadas e as faixas de frequência previstas. Os requisitos de desempenho detalhados e a harmonização de espectro seguem em elaboração, com decisões-chave previstas para a Conferência Mundial de Radiocomunicações de 2027.

Ainda assim, o rumo está traçado — e ele aponta para o alto do espectro. Segundo o resumo do framework compilado por reguladores, o IMT-2030 deve usar uma ampla gama de bandas, de abaixo de 1 GHz até frequências acima de 100 GHz. O intervalo de 7 a 24 GHz — apelidado de “banda dourada” (FR3) — concentra hoje a maior parte da disputa por espectro, e a ITU já sinaliza a necessidade de considerar faixas acima de 92 GHz como complemento. Bandas verdadeiramente na faixa de terahertz permanecem, por ora, objeto de pesquisa, não de operação comercial.

O que muda em relação ao 5G

Duas mudanças conceituais merecem atenção.

A primeira é de frequência. Quanto mais alta a frequência, mais superficial a absorção de energia no corpo: acima de 6 GHz, o aquecimento se concentra nas camadas externas da pele. Isso reduz a penetração — mas desloca a discussão para efeitos superficiais e localizados, um terreno menos estudado a longo prazo.

A segunda é o sensoriamento. Entre as capacidades novas que a M.2160 lista está o chamado ISAC (Integrated Sensing and Communication): redes que, além de transmitir dados, usam os próprios sinais de rádio para “enxergar” o ambiente — detectar presença, movimento e, em cenários de pesquisa, até sinais vitais. Detecção remota de batimentos e respiração por radar/RF é uma linha de pesquisa real, mas ainda prospectiva; está longe de ser um recurso padrão de torres comerciais. A pergunta legítima que isso levanta é menos sanitária e mais de privacidade e consentimento, e merece cobertura própria.

As diretrizes: o que a ICNIRP realmente fez em 2020

O ponto mais sensível — e onde o debate público mais escorrega — são os limites de exposição. Eles são definidos pela Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não-Ionizante (ICNIRP), cujas diretrizes anteriores eram de 1998.

Ao contrário do que se repete, a revisão de 2020 não foi cosmética. Segundo a própria comparação publicada pela ICNIRP, as diretrizes de 2020 acrescentaram restrições de corpo inteiro para frequências acima de 6 GHz, criaram restrições para exposições breves (menos de 6 minutos) acima de 400 MHz e reduziram a área de média usada no cálculo em altas frequências, adotando a densidade de potência absorvida como grandeza de referência acima de 6 GHz.

O que a crítica científica sustenta — e aqui a ressalva é justa — é que a base conceitual continua térmica. Os limites são calibrados para impedir aquecimento excessivo de tecidos; efeitos não-térmicos (estresse oxidativo, alterações celulares) não são reconhecidos pela ICNIRP como estabelecidos, por ausência de mecanismo biológico consolidado. E persiste uma lacuna concreta: não há estudos epidemiológicos de longo prazo em populações humanas para exposição contínua nas frequências mais altas do 6G, simplesmente porque essas redes ainda não existem em escala.

A carta que a indústria não gosta de citar

Há indícios experimentais que mantêm a porta aberta.

O maior estudo animal de longo prazo já feito sobre radiofrequência, conduzido pelo Instituto Ramazzini (Itália) e publicado na Environmental Research em 2018, expôs 2.448 ratos a um campo de 1,8 GHz (padrão GSM de estações-base) por toda a vida. Encontrou aumento estatisticamente significativo de schwannomas cardíacos nos machos na maior dose — em níveis de exposição abaixo dos limites regulatórios dos EUA. É crucial o enquadramento honesto: trata-se de 1,8 GHz, não de ondas milimétricas, e a relevância desses tumores raros de rato para humanos é debatida. O valor do dado não é “provar” risco no 6G, e sim mostrar que a hipótese de efeitos em níveis considerados seguros não foi encerrada.

Um segundo fio, mais diretamente ligado às altas frequências, é a hipótese das glândulas sudoríparas como antenas. Desde Feldman et al. (2008), pesquisadores argumentam que os ductos sudoríparos, por sua estrutura helicoidal, poderiam se comportar como pequenas antenas na faixa de ondas milimétricas e sub-terahertz. Em trabalho publicado na Environmental Research em 2018 — intitulado justamente “a pele humana como receptor sub-THz: o 5G representa perigo ou não?” —, o grupo levantou a possibilidade de absorção focada em pontos específicos da pele. É uma hipótese contestada, não um consenso: outros grupos disputam os modelos. Mas é exatamente o tipo de questão aberta que os limites atuais não endereçam.

O Contraditório: o que dizem os defensores dos limites

A posição institucional é robusta e precisa ser apresentada sem caricatura.

A ICNIRP sustenta que suas diretrizes são baseadas em décadas de literatura revisada por pares, que incorporam fatores de segurança destinados a proteger toda a população — incluindo crianças e trabalhadores — e que nenhum efeito adverso foi estabelecido abaixo dos limites. (Nota de precisão: o físico Rodney Croft, frequentemente citado como “presidente da ICNIRP”, presidiu a comissão de maio de 2020 a julho de 2024não é mais o presidente.)

A indústria, representada por associações como a GSMA, argumenta que o 6G tende a operar com potências de transmissão menores graças ao beamforming (feixes direcionados) e à maior densidade de antenas.

E a Organização Mundial da Saúde deixou de ser apenas “neutra”. Entre outubro de 2023 e maio de 2025, a OMS encomendou e publicou 12 revisões sistemáticas sobre efeitos de radiofrequência na saúde. A revisão sobre câncer (Karipidis et al., 2024) não encontrou associação entre uso de celular e tumores cerebrais; a revisão sobre função cognitiva tampouco achou associação significativa — embora com confiança na evidência classificada como baixa a muito baixa.

E o outro lado do contraditório

O consenso, porém, não é pacífico. Um grupo de cientistas independentes reunidos na ICBE-EMF publicou, em 2025, um artigo na *Environmental Health* argumentando que as revisões encomendadas pela OMS têm falhas metodológicas e não oferecem “garantia de segurança”. Apontam ainda uma inconveniência de origem: o Projeto EMF da OMS foi fundado em 1996 por Michael Repacholi, também cofundador da ICNIRP — o que, para os críticos, aproxima demais quem avalia o risco de quem define os limites.

E há a questão do financiamento, que não é conspiração e sim dado publicado. A revisão de Huss et al. (2007), na *Environmental Health Perspectives*, mostrou que, entre estudos experimentais de exposição a radiofrequência, os financiados exclusivamente pela indústria eram os menos propensos a relatar efeitos. Uma atualização de van Nierop et al. (2010) confirmou o padrão. Conflito de interesse não invalida automaticamente um resultado — mas é informação que o leitor tem o direito de ponderar.

Cientistas como Joel Moskowitz, diretor do Center for Family and Community Health da UC Berkeley e um dos assessores do International EMF Scientist Appeal (assinado por mais de 240 pesquisadores da área), defendem publicamente limites baseados em efeitos biológicos, não apenas térmicos, e mais cautela no ritmo de implantação.

O princípio da precaução, revisitado

Em 2000, a União Europeia formalizou o Princípio da Precaução: diante de ameaça de dano sério ou irreversível, a ausência de certeza científica absoluta não deveria, por si só, justificar adiar medidas de proteção. Aplicá-lo ao 6G não significa presumir perigo — significa reconhecer três fatos simultâneos: as frequências mais altas ainda não têm dados humanos de longo prazo; as diretrizes, embora atualizadas em 2020, seguem ancoradas no paradigma térmico; e o cronograma comercial corre à frente da epidemiologia.

A resposta a essa tensão é política, não técnica: é uma escolha sobre quanto de incerteza se aceita antes de implantar em escala. Essa escolha, hoje, é feita quase sem debate público.

Conclusão

O 6G não é, com base na evidência disponível, um perigo demonstrado. Tampouco é uma tecnologia com segurança comprovada nas frequências que pretende explorar — porque o experimento de longo prazo simplesmente ainda não foi feito. O que existe é um consenso institucional (ICNIRP, revisões da OMS) que diz não haver efeitos estabelecidos, e uma minoria científica organizada que contesta a metodologia e cobra dados que ainda não temos.

Para o Arcavox, o ponto não é escolher um lado da física, e sim expor a assimetria de tempo: a padronização técnica avança em anos, a evidência biológica de longo prazo leva décadas. Fica a pergunta que reguladores de todo o mundo terão de responder antes de 2030: quem decide qual grau de incerteza é aceitável — e com base em quais dados?


Fontes

  1. ITU — IMT-2030 (6G). Página oficial do processo. https://www.itu.int/en/ITU-R/study-groups/rsg5/rwp5d/imt-2030/pages/default.aspx
  2. Recomendação ITU-R M.2160-0 (2023). Framework and overall objectives of the future development of IMT for 2030 and beyond. https://www.itu.int/rec/R-REC-M.2160-0-202311-I/en
  3. Digital Regulation Platform. Overview of 6G (IMT-2030). https://digitalregulation.org/overview-of-6g-imt-2030/
  4. ICNIRP. RF EMF (100 kHz–300 GHz) — página temática. https://www.icnirp.org/en/frequencies/radiofrequency/index.html
  5. ICNIRP. Differences between the ICNIRP (2020) and previous guidelines. https://www.icnirp.org/en/differences.html
  6. ICNIRP (2020). Guidelines for Limiting Exposure to Electromagnetic Fields (100 kHz to 300 GHz). Health Physics 118(5):483-524. https://www.icnirp.org/cms/upload/publications/ICNIRPrfgdl2020.pdf
  7. ICNIRP. Rodney Croft — perfil de ex-membro (presidência 2020–2024). https://www.icnirp.org/en/about-icnirp/former-members/details/former-member-croft.html
  8. ARPANSA. WHO systematic reviews find no association between RF EMF and health outcomes. https://www.arpansa.gov.au/who-systematic-reviews-find-no-association-between-rf-emf-and-health-outcomes
  9. BfS (Alemanha). Como a OMS usa revisões sistemáticas para avaliar riscos de comunicação móvel. https://www.bfs.de/EN/topics/emf/competence-centre-emf/reports/reports-mobile/who-systematic-reviews.html
  10. **ICBE-EMF / Environmental Health (2025).** The WHO-commissioned systematic reviews on health effects of radiofrequency radiation provide no assurance of safety. https://link.springer.com/article/10.1186/s12940-025-01220-4 · https://icbe-emf.org/scientific-flaws-of-the-who-review-on-cell-phone-radiation-cancer-risk/
  11. Ramazzini Institute — Falcioni et al. (2018). Environmental Research. Tumores cerebrais e cardíacos em ratos expostos a campo de 1,8 GHz GSM. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0013935118300367
  12. Betzalel, Ben Ishai & Feldman (2018). The human skin as a sub-THz receiver — Does 5G pose a danger to it or not? Environmental Research. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0013935118300331
  13. Tripathi et al. (2015). Morphology of human sweat ducts… resonance in the terahertz region. Scientific Reports 5:9071. https://www.nature.com/articles/srep09071
  14. Huss et al. (2007). Source of Funding and Results of Studies of Health Effects of Mobile Phone Use. Environmental Health Perspectives 115(1):1-4. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC1797826/
  15. van Nierop et al. (2010). Source of funding in experimental studies of mobile phone use on health: update. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1631070510001465
  16. UC Berkeley Research — Joel Moskowitz. Health risks of cell phone radiation. https://vcresearch.berkeley.edu/news/berkeley-talks-joel-moskowitz-health-risks-cell-phone-radiation

ArcaVox · 22 de julho de 2026

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